Brasil exige produtividade de Dubai, mas impõe restrições à construção da Senna Tower, aponta engenheira

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Responsável pela engenharia da Senna Tower, Stéphane Domeneghini, diretora-executiva da Talls Solutions, detalha por que construir um edifício de 500 metros no Brasil exige adaptar tecnologias internacionais e equilibrar produtividade, segurança e restrições operacionais

A construção do Senna Tower, em Balneário Camboriú (SC), expõe uma contradição da engenharia brasileira: o mercado espera produtividade e padrões internacionais, mas oferece condições de trabalho bem diferentes das encontradas em países como Emirados Árabes, Estados Unidos e China.
Com 500 metros de altura, 154 pavimentos e 228 unidades — algumas avaliadas em até R$ 200 milhões —, o empreendimento da FG Empreendimentos será o edifício residencial mais alto do mundo quando concluído.
Mas, segundo Stéphane Domeneghini, engenheira responsável pelo projeto e diretora-executiva da Talls Solutions, a execução enfrenta limitações que vão além da complexidade técnica.
🌍 A conta da produtividade
O contraste aparece na própria jornada dos canteiros de obras. No Brasil, a equipe trabalha das 7h às 18h. Em Dubai, a estrutura pode avançar 24 horas por dia; em Nova York, os trabalhos se estendem até as 21h; e, na China, há turnos noturnos.
O resultado é um desafio: entregar produtividade comparável à de mercados internacionais sob regras e condições mais restritivas.
“Nas questões de segurança, por exemplo, vendemos com preço de América do Sul, mas a exigência de normas é de mercado europeu. Estamos no topo da exigência, mas o mercado paga a base do base”, afirma Domeneghini.
🏗️ Tecnologia importada não resolve tudo
A adaptação à realidade brasileira também marcou o primeiro ano da Senna Tower.
A equipe inicialmente planejou utilizar grandes estacas escavadas, solução comum em edifícios superaltos no exterior.
Mas encontrou obstáculos relacionados à dureza da rocha local, à falta de maquinário adequado e à escassez de mão de obra qualificada.
Uma alternativa exigiria equipamentos americanos ou chineses com custo estimado em US$ 70 milhões. O projeto precisou ser reavaliado, e a solução final adotou 800 estacas, priorizando a segurança. Foram quatro anos de testes em campo.
🏭 A industrialização como saída
Para a engenheira, a escassez de profissionais e os métodos artesanais tornam cada vez mais difícil sustentar o ritmo de construção exigido pela verticalização das cidades.
A resposta passa por investir em sistemas industrializados, formas e soluções de vedação mais rápidas, além de incorporar fornecedores ao processo de treinamento das equipes.
Ela também chama atenção para um desperdício pouco visível: estruturas, concreto e aço utilizados em excesso quando faltam investimentos adequados em projeto.
Na avaliação da executiva, sistemas industrializados já têm aplicação mais avançada no Minha Casa, Minha Vida do que em segmentos de médio e alto padrão.
📍 Em que estágio está a obra?
Após concluir as 800 estacas da torre, três meses antes do previsto, a equipe trabalha na execução da parede diafragma.
A estrutura permitirá escavar o terreno e controlar a entrada de água do lençol freático sem provocar impactos nas construções vizinhas.
O primeiro ano foi dedicado a etapas pouco visíveis para quem acompanha a obra da rua.
Agora, começa a preparação para que a torre efetivamente suba. A previsão é de oito anos de construção — um prazo que também reflete as condições particulares de executar um projeto dessa escala no Brasil.
Com informações da Folha de S.Paulo. Entrevista com Stéphane Domeneghini, diretora-executiva da Talls Solutions, do Grupo FG, e presidente do capítulo Brasil do Council on Vertical Urbanism (CVU).





























