Construção industrializada: quase metade já usa, mas só 15,7% das obras chegaram lá
- Redação Liga News

- há 36 minutos
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Novo IGIC, do FGV Ibre, revela avanço ainda tímido da industrialização e aponta falta de mão de obra, produtividade e Reforma Tributária como vetores da transformação.

A construção civil brasileira está começando a trocar o canteiro pela fábrica. Mas ainda está longe de fazer isso em escala.
Quase metade das construtoras brasileiras — 48,2% — já utiliza algum método industrializado em suas obras. O problema é que, quando se olha para a intensidade dessa adoção, apenas 15,7% dos empreendimentos podem ser classificados como industrializados.
Os dados fazem parte do novo Índice de Industrialização da Construção (IGIC), desenvolvido pelo FGV Ibre e que será divulgado esta semana. O levantamento, obtido com exclusividade pelo Valor Econômico, mostra um setor que começa a mudar de método, mas ainda de maneira bastante pontual.
E talvez essa diferença entre “usar” e “industrializar” seja a parte mais importante da história.
🏗️ Ter uma parede pronta não transforma o canteiro em fábrica
Em junho, 33,6% das empresas disseram utilizar sistemas industrializados em suas obras, enquanto outros 14,6% afirmaram adotá-los apenas em parte dos projetos.
É daí que surge o número de 48,2%.
Mas o IGIC cruza dois fatores: adoção e intensidade.
Para entrar de fato na categoria de construção industrializada, o empreendimento precisa utilizar sistemas como estruturas pré-moldadas, paredes de concreto produzidas em fábrica, steel framing, drywall e kits de instalações pré-fabricados, entre outros.
Como explica Ana Castelo, coordenadora de projetos de construção do FGV Ibre, existe uma diferença significativa entre industrializar uma etapa e industrializar o processo.
“Há várias etapas. O uso parcial envolve uma ou mais fases da construção, enquanto o processo pode se estender à pré-fabricação de um edifício inteiro e sua montagem no local final”, afirmou Castelo ao Valor Econômico.
O novo índice será atualizado anualmente. Pela primeira vez, portanto, o Brasil passa a ter uma régua própria para acompanhar essa transformação.
👷 A falta de trabalhador pode fazer o que a tecnologia ainda não conseguiu
Existe um argumento bastante conhecido para industrializar a construção: produtividade.
Mas talvez o incentivo mais imediato seja outro: não tem gente suficiente para trabalhar no canteiro.
A escassez de mão de obra qualificada já aparece como um dos principais fatores levando empresas a considerar métodos construtivos modernos.
E aqui a lógica é quase inevitável: se é cada vez mais difícil encontrar trabalhadores, uma parte maior do trabalho precisa migrar para ambientes controlados, com processos repetíveis e produção em fábrica.
Para Castelo, essa transformação também pode melhorar as condições de trabalho e ajudar a atrair perfis que hoje têm pouca afinidade com o canteiro — incluindo jovens e mulheres.
“Um setor mais industrializado precisa de menos trabalhadores. É por isso que industrializar a construção faz cada vez mais sentido”, afirmou.
💰 Só existe um pequeno problema: o imposto
Se a falta de mão de obra empurra a construção para a industrialização, a estrutura tributária brasileira historicamente fez o movimento contrário.
Na construção convencional, grande parte da atividade é tributada como serviço, pelo ISS.
Quando uma parede de concreto ou estrutura de steel framing é produzida em uma fábrica e transportada para o canteiro, entram na equação tributos associados à produção industrial, como ICMS e IPI.
Resultado: aquilo que deveria aumentar produtividade pode começar a operação custando mais caro.
“Se você produz no canteiro, paga ISS. Se produz na fábrica e leva para o canteiro, paga ICMS, que é muito mais alto”, explicou Castelo ao Valor Econômico.
É justamente aqui que a Reforma Tributária pode mudar o jogo.
Ainda não há certeza de que a nova estrutura vai acelerar a industrialização. Mas o IGIC permitirá acompanhar, ano a ano, se a mudança tributária está realmente alterando essa equação.
📈 Algumas tecnologias já estão correndo
O drywall aparece como o sistema industrializado mais utilizado, presente em 65,8% dos projetos pesquisados. Na sequência vêm:
Concreto pré-moldado: 61,2%
Estruturas metálicas: 51%
Painéis de cimento: 34,3%
Steel framing: 32%
Fachadas pré-fabricadas: 28%
E os números que mais chamam atenção não são necessariamente os líderes, mas quem está crescendo.
O uso de painéis de cimento praticamente dobrou em um ano, de 18,1% para 34,3%. O steel framing passou de 15,6% para 32%. Já as fachadas pré-fabricadas saltaram de 12,9% para 28%.
Ou seja: algumas tecnologias ainda são minoritárias, mas estão avançando rapidamente.
⚙️ O verdadeiro desafio é sair do piloto
É aqui que a discussão fica mais interessante.
Uma construtora pode adotar drywall em alguns empreendimentos, usar pré-moldados em determinadas estruturas e testar steel framing em um projeto específico.
Isso é adoção.
Outra coisa é redesenhar seus processos, fornecedores, projetos, logística e gestão para construir de forma industrializada em escala.
“Os números mostram que a industrialização está começando a ganhar espaço dentro das empresas. No entanto, há uma diferença importante entre adotar esses métodos e industrializar em escala”, alertou Ana Castelo.
E essa diferença pode definir quem ganha produtividade nos próximos anos.
🔎 O novo indicador mede mais do que tecnologia
O mérito do IGIC é justamente tirar a industrialização da conversa puramente tecnológica.
Para o FGV Ibre, a questão envolve produtividade, disponibilidade e qualificação de mão de obra, custos, prazo de obra e capacidade de ampliar a produção de habitação e infraestrutura.
Em outras palavras: industrializar não é simplesmente trocar concreto por steel framing.
É tentar resolver uma equação que ficou cada vez mais difícil para a construção brasileira: construir mais, em menos tempo, com menos dependência de mão de obra e sem transformar produtividade em custo adicional.
E agora o setor terá um número para acompanhar se está, de fato, fazendo isso.
Fonte: Valor Econômico, com dados exclusivos do Índice de Industrialização da Construção (IGIC), do FGV Ibre, e declarações de Ana Castelo, coordenadora de projetos de construção do FGV Ibre.





























