Cury vê cinco obras atrasarem em meio ao boom do Minha Casa, Minha Vida
- Redação Liga News

- há 1 dia
- 5 min de leitura
Construtora admite que o forte aquecimento do mercado imobiliário dificultou a contratação de mão de obra e equipamentos.

O mercado imobiliário aquecido costuma ser celebrado como sinal de força. Mas, quando todos aceleram ao mesmo tempo, surge uma pergunta menos confortável: há capacidade operacional para entregar tudo no ritmo em que os empreendimentos são lançados?
A experiência recente da Cury Construtora mostra que esse pode ser um dos novos gargalos do setor.
Dos 87 canteiros atualmente abertos pela companhia, cinco já ultrapassaram o prazo máximo de entrega, considerando a tolerância contratual de seis meses. Outros quatro estão atrasados em relação ao cronograma e correm o risco de também ultrapassar esse limite.
O impacto já apareceu no balanço. E também na relação com os clientes.
O boom veio. A mão de obra não acompanhou.
A Cury viveu uma expansão expressiva nos últimos anos, acompanhando o crescimento do Minha Casa, Minha Vida (MCMV).
Entre 2020 e 2025, a empresa passou de 17 para 37 empreendimentos lançados por ano. Em unidades, o salto foi ainda mais relevante: de 8,2 mil para 26,4 mil apartamentos.
Não foi um movimento isolado.
A melhora das condições do programa habitacional, com redução de juros, ampliação das faixas de renda e aumento do teto dos imóveis elegíveis, colocou mais demanda no mercado de habitação popular.
Construtoras já especializadas no segmento, como Cury, Direcional, Tenda, MRV e Plano & Plano, ampliaram operações.
Ao mesmo tempo, empresas tradicionalmente associadas a padrões mais elevados também passaram a enxergar oportunidades no MCMV, entre elas Cyrela, Eztec, Trisul e Tecnisa.
Resultado? Mais lançamentos, mais obras e uma disputa maior pelos mesmos recursos produtivos.
E aí aparece o gargalo.
“Tivemos um momento de muita demanda no mercado e não conseguimos recuperar esse atraso. Isso acabou pegando a gente numa contramão.”
A avaliação é de Paulo Curi, copresidente da Cury, durante teleconferência com investidores e analistas, conforme relatado pelo Estadão Broadcast.
Quando o problema deixa de ser demanda e passa a ser execução
A dificuldade, segundo a companhia, esteve principalmente na contratação de mão de obra e equipamentos.
É uma consequência particularmente relevante para o segmento de habitação popular, no qual escala e velocidade de produção são fundamentais para a rentabilidade.
A Cury afirma que os atrasos estão concentrados nos cinco projetos que já ultrapassaram o prazo e que os demais empreendimentos seguem normalmente.
A empresa também aposta em uma melhora operacional.
Segundo Paulo Curi, a área de engenharia vem apresentando ganhos de produtividade, o que pode permitir que os quatro empreendimentos atualmente atrasados recuperem o cronograma.
É uma questão que merece atenção dos investidores: não basta lançar mais. É preciso transformar velocidade comercial em capacidade de execução.
O balanço já começou a sentir
Os atrasos não ficaram apenas no canteiro.
No segundo trimestre, a Cury precisou constituir provisões relacionadas a indenizações e despesas adicionais de manutenção, pressionando as despesas financeiras.
O indicador chegou a R$ 22,1 milhões, alta de 41,7% na comparação anual.
O diretor financeiro, João Mazzuco, também sinalizou que novas provisões poderão ser constituídas caso os quatro empreendimentos que ainda estão atrasados confirmem o estouro do prazo.
Mas há uma nuance importante: mesmo com esse impacto, a Cury registrou lucro líquido de R$ 270,5 milhões no segundo trimestre, crescimento de 14,3% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Ou seja: o problema é relevante, mas não significa, neste momento, uma reversão do desempenho financeiro da companhia.
Cerca de 2 mil apartamentos no meio da equação
Os cinco projetos com atraso representam, segundo cálculos da reportagem, aproximadamente 2 mil apartamentos e R$ 600 milhões em vendas. A Cury foi procurada pelo Estadão Broadcast, mas não compartilhou esses dados.
As reclamações de consumidores no Reclame Aqui aparecem concentradas em empreendimentos como Guedala Park, no Butantã, Cidade Villa Jaguaré, no Parque Continental, Energy Guarulhos, Elo Santo André e Pateo Nazareth, no Porto Maravilha, no Rio de Janeiro.
Os prazos, porém, não são iguais.
No Elo Santo André, por exemplo, a entrega estava prevista para setembro de 2025, com possibilidade de extensão até março de 2026 pela tolerância contratual.
A obra foi concluída apenas no fim de julho, e as unidades começaram a ser liberadas para vistoria.
Já o Guedala Park ultrapassou em junho o prazo final considerando a tolerância e ainda não tinha, segundo a reportagem, uma posição definitiva para entrega.
Para quem comprou, não é simplesmente uma linha que mudou em um cronograma. É um imóvel que deveria virar moradia, patrimônio ou investimento (e que continua esperando).
E quando o condomínio chega antes da chave?
Outro ponto que vem gerando contestação é a cobrança de taxa condominial antes da entrega das chaves.
Em resposta publicada no Reclame Aqui, a Cury afirmou que a cobrança não estaria vinculada à entrega individual das chaves ou à vistoria, mas à “efetiva instalação e operação regular do condomínio”, conforme previsto no contrato de compra e venda.
A interpretação jurídica, entretanto, não é consensual.
Para o advogado Marcelo Tapai, especialista em direito do consumidor, a cobrança pode ser considerada abusiva quando o comprador ainda não recebeu efetivamente a posse do imóvel.
Segundo Tapai, não basta a emissão do Habite-se. Ainda são necessárias etapas como a instalação do condomínio, a liberação das vistorias e, finalmente, a entrega das chaves.
“Só aí ocorre a entrega da chave, que garante de fato a posse sobre o imóvel.”
O advogado cita como respaldo o Tema Repetitivo 886 do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e a Súmula 160 do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP).
A Cury apresenta outra leitura
O superintendente jurídico da companhia, Luiz Fernando Guimarães Lobato, esclarece que a empresa assume o pagamento do condomínio quando o atraso na entrega ocorre por responsabilidade da própria Cury.
A exceção, segundo ele, acontece quando o cliente está inapto a receber as chaves (como em situações de inadimplência) ou quando se recusa injustificadamente a recebê-las depois que eventuais problemas apontados na vistoria foram solucionados.
“Se não recebeu a chave por culpa nossa, continuamos pagando a taxa condominial”, afirma Lobato.
A diferença entre as duas interpretações é importante porque coloca em discussão algo maior do que uma cobrança específica: em que momento o risco e os custos de um empreendimento deixam de ser da construtora e passam efetivamente para o comprador?
A lição para o mercado
O caso da Cury revela uma contradição típica de mercados em forte expansão.
O crescimento do MCMV ampliou demanda, melhorou as condições de financiamento e criou espaço para que construtoras aumentassem escala.
Mas o mesmo ciclo de crescimento elevou a disputa por mão de obra, equipamentos e capacidade de execução.
Em outras palavras: o gargalo pode ter migrado do “tem comprador?” para o “conseguimos construir a tempo?”
Para empresas, o episódio reforça a importância de dimensionar capacidade produtiva antes de transformar oportunidade comercial em volume de lançamentos.
Para investidores, coloca um ponto adicional na análise: crescimento de vendas e lançamentos precisa caminhar junto com produtividade, planejamento e execução.
E, para os compradores, o atraso deixa de ser apenas um problema operacional.
Pode significar custo financeiro, frustração, indefinição patrimonial e disputa sobre responsabilidades.
O mercado imobiliário pode até estar acelerando. A questão agora é descobrir quem consegue acelerar sem perder o controle da obra.
Fonte: Estadão Broadcast. Citações e informações atribuídas à reportagem publicada pelo veículo.





























