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Fim da escala 6x1: construção terá trabalhador suficiente para reduzir a jornada?

Foto do escritor: Redação Liga News
Redação Liga News
8 de set.
5 min de leitura

Atualizado: 9 de set.

Construção civil já enfrenta escassez de profissionais e pode precisar de 288 mil trabalhadores adicionais para compensar a redução da jornada para 40 horas semanais


Fim da escala 6x1: construção terá trabalhador suficiente para reduzir a jornada?

Enquanto o Congresso discute a redução da jornada para 40 horas semanais, o SindusCon-SP alerta para um problema anterior: os canteiros já não encontram profissionais suficientes para atender à demanda.


👷 O problema não começa na jornada. Começa na falta de gente.

“O desafio hoje não é falta de ocupação das equipes, mas justamente a carência de profissionais disponíveis para atender à demanda”, afirma Yorki Estefan, presidente do SindusCon-SP, à Folha de S.Paulo.

A frase resume o dilema que a construção civil leva para a discussão sobre o fim da jornada 6x1.


A proposta aprovada pela CCJ do Senado ainda precisa passar pelo plenário, em dois turnos. Mas, para as construtoras, a pergunta já deixou de ser apenas quanto custa trabalhar menos horas.


É outra: onde estão os trabalhadores que precisarão ser contratados para manter a obra funcionando?


As estimativas do setor apontam que seriam necessários cerca de 288 mil novos profissionais para compensar a redução da jornada de 44 para 40 horas semanais.


O detalhe incômodo é que o mercado já não consegue preencher as vagas atuais.


🏗️ Uma obra não funciona como um escritório


A construção tem uma particularidade que torna a discussão mais complexa.


Em uma obra, as equipes trabalham em cadeia. Fundação libera estrutura. Estrutura libera fachada. Fachada libera etapas seguintes.


Se uma frente atrasa, quem vem depois também espera.

“Diferentemente de outras atividades, a construção opera em cadeia: uma etapa depende da conclusão da anterior”, explica Estefan à Folha.

Fundações, estruturas e revestimentos de fachada estão entre as etapas mais sensíveis porque fazem parte do chamado caminho crítico, as atividades que determinam diretamente o prazo final de entrega.


Nas fundações, por exemplo, menos dias de trabalho podem significar equipamento pesado parado.


Na estrutura e na fachada, o efeito pode ser ainda mais simples de entender: se uma equipe não termina, a próxima não começa.


📅 E aquele sábado que parecia “sobrando”?


Há ainda um detalhe pouco perceptível para quem olha uma obra de fora.


O sábado frequentemente funciona como uma espécie de reserva técnica do cronograma.


Choveu? Material atrasou? Houve uma interrupção no fornecimento? Algum imprevisto apareceu?


O dia adicional pode ajudar a recuperar parte do tempo perdido.


Por isso, segundo simulações do setor, um empreendimento residencial que hoje leva 30 meses para ficar pronto poderia chegar a aproximadamente 33 meses com uma jornada de 40 horas semanais.


Três meses parecem pouco no calendário.

No orçamento de uma obra, nem tanto.


💰 Mais prazo também significa mais dinheiro


Uma obra que demora mais não fica simplesmente “mais três meses em construção”.


Ela mantém equipes, contratos, estruturas administrativas e fornecedores mobilizados por mais tempo. Também posterga receitas e pode pressionar o fluxo de caixa.


“O principal efeito seria a maior pressão sobre o fluxo de caixa, já que a obra passaria a demandar mais tempo e capital para entregar o mesmo produto”, afirma Estefan.


E existe outro problema: muitos imóveis já foram vendidos com prazo de entrega definido.


É aí que a discussão sobre jornada deixa o departamento de Recursos Humanos e chega diretamente ao bolso da incorporadora (e potencialmente do comprador).


📈 A conta pode chegar ao preço do imóvel


A Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) estima que a redução da jornada poderia elevar em até 15% os custos de mão de obra, com impacto de aproximadamente R$ 155,6 bilhões por ano para o setor.

Ely Wertheim, vice-presidente da CBIC, defende cautela: “Precisamos de um encaminhamento que não penalize tanto o setor, sobretudo porque há muitos contratos que foram firmados com as regras vigentes.”

O impacto tende a ser ainda maior na habitação popular, onde a mão de obra representa uma parcela relevante do custo total.


Segundo estimativas da Abrainc, os preços dos imóveis poderiam subir cerca de 5,5%. A associação calcula que esse aumento poderia retirar aproximadamente 2,5 milhões de famílias das condições de acesso ao financiamento habitacional.


Ou seja: uma mudança criada para melhorar a qualidade de vida de quem trabalha pode acabar criando um desafio adicional justamente para quem ainda está tentando comprar a casa própria.


A equação não é tão simples quanto trocar 44 por 40.


🤖 Mas a tecnologia não deveria resolver?


Industrialização, BIM, inteligência artificial, sistemas modulares e novas tecnologias construtivas já estão transformando os canteiros.



A construção ainda depende de pedreiros, carpinteiros, armadores, serventes e operadores de máquinas.


Segundo as entidades do setor, a produtividade melhorou, mas ainda não avançou o suficiente para absorver, no curto prazo, uma redução ampla da jornada sem pressionar custos e prazos.


Isso explica por que CBIC e SindusCon-SP não se colocam contra a discussão sobre qualidade de vida, mas defendem que a redução da jornada venha acompanhada de investimentos em produtividade e de um período de adaptação.


👩‍🔧 Há, porém, um possível efeito positivo


Nem tudo é preocupação.


O próprio SindusCon-SP avalia que modelos mais flexíveis de trabalho podem ajudar a tornar a construção mais atraente para novos profissionais e ampliar a participação feminina nos canteiros.


E esse ponto conversa diretamente com outro problema estrutural do setor: a construção está envelhecendo e precisa renovar sua mão de obra.


Uma jornada mais flexível pode ajudar.


Mas, antes disso, é preciso encontrar quem ocupará essas novas vagas.


🏢 Quem pode sentir mais: as pequenas construtoras


O maior risco está nas empresas menores.


Pequenas e médias construtoras normalmente têm menos acesso a crédito e menor capacidade de investir rapidamente em industrialização, automação e ganhos de produtividade.


Uma mudança abrupta poderia, segundo a CBIC, pressionar ainda mais margens já apertadas e acelerar a consolidação do mercado.


É por isso que o debate sobre transição ganhou tanta importância.


A proposta aprovada prevê 14 meses de adaptação para chegar às 40 horas.


A Abrainc, porém, defende pelo menos 60 meses, argumentando que os ciclos da construção podem durar de três a quatro anos.


🎯 A questão central é produtividade, não apenas jornada


No fim, o debate sobre o 6x1 expõe uma contradição interessante da construção brasileira.


O setor quer produzir mais, está industrializando seus canteiros e incorporando tecnologia.


Ao mesmo tempo, não encontra trabalhadores suficientes para executar a demanda atual.


Reduzir a jornada pode melhorar a qualidade de vida e ajudar a modernizar as relações de trabalho.


Mas, se menos horas não vierem acompanhadas de mais produtividade, qualificação e mão de obra, a conta terá de aparecer em algum lugar.


No prazo.

Na margem.

No caixa.

Ou no preço do imóvel.


E talvez seja essa a discussão que realmente importe para a construção: como trabalhar menos horas sem produzir menos e sem tornar a moradia ainda mais cara?

Fonte: Folha de S.Paulo, com declarações de Yorki Estefan e Ely Wertheim e estimativas de CBIC e Abrainc.

 
 
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