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Eduardo Fischer, CEO da MRV&CO: falta de mão de obra vai empurrar construção para a industrialização

Foto do escritor: Redação Liga News
Redação Liga News
17 de ago.
6 min de leitura

Para CEO da MRV&CO, a escassez de trabalhadores não é exclusividade brasileira e deve acelerar uma transformação no modelo de produção da construção civil, com mais industrialização, tecnologia e produtividade.


Eduardo Fischer, CEO da MRV&CO: falta de mão de obra vai empurrar construção para a industrialização

Para Eduardo Fischer, CEO da MRV&CO, a escassez de trabalhadores não é um problema passageiro do Brasil. É uma mudança estrutural que deve acelerar a industrialização do setor — enquanto novas formas de morar podem redesenhar o mercado imobiliário na próxima década.


A construção civil brasileira vive uma contradição difícil de ignorar: há demanda, há crédito e há um déficit habitacional de cerca de 6 milhões de moradias. O que começa a faltar é quem construa.


Para Eduardo Fischer, CEO da MRV&CO (MRVE3), esse não é um gargalo conjuntural provocado pelo mercado de trabalho atual. É uma transformação estrutural — e que deve obrigar a construção civil a mudar a maneira como produz.

“A dificuldade de mão de obra no nosso setor é estrutural. E não vejo que ela vai mudar.”

A declaração foi dada por Fischer em entrevista ao MoneyTimes, em que o executivo também falou sobre os próximos passos da MRV&CO, o desempenho da operação brasileira, o processo de desalavancagem, a Reforma Tributária e as mudanças no comportamento de quem compra — ou aluga — um imóvel.


🏗️ O problema não é só brasileiro


Fischer recorreu a uma conversa com uma empresa chinesa para mostrar que a questão vai muito além do Brasil.


Segundo ele, a idade média do trabalhador da construção civil na China já chegou a 51 anos. Em uma economia dinâmica, os jovens encontram outras alternativas profissionais — exatamente como começa a acontecer em outros mercados.


E há uma diferença importante: hoje, a construção não necessariamente compete apenas por salário.


O trabalho no canteiro envolve exposição ao sol e à chuva, esforço físico e uma rotina menos flexível. Para o jovem, portanto, a decisão pode ser racional: mesmo quando a remuneração é competitiva, outras atividades oferecem condições de trabalho mais atraentes.


O resultado? A construção precisa produzir mais com menos gente.

“Isso é uma força tão violenta que acaba te empurrando na direção da industrialização”, afirmou Fischer ao MoneyTimes.

É aqui que a discussão deixa de ser apenas sobre contratação e passa a ser sobre modelo de produção.


Da obra artesanal à indústria


Fischer conhece essa transição de dentro.


Ele está há quase 34 anos na MRV, boa parte deles acompanhando diretamente operações de canteiro. Hoje, a companhia possui cerca de 270 canteiros em operação no Brasil.


Para o executivo, a construção ainda carrega uma característica que dificulta a industrialização: cada empreendimento é praticamente único.


Terreno, projeto, licenciamento, legislação municipal e execução formam uma cadeia com alto grau de particularidade.


Essa “artesanalidade”, como define Fischer, foi administrada pela MRV durante seu processo de expansão. A companhia saiu de uma atuação mais concentrada para uma operação nacional, criou novas marcas, entrou em outros segmentos e chegou ao mercado americano.


Agora, a lógica parece ser outra: simplificar, ganhar eficiência e transformar escala em rentabilidade.


📈 O turnaround da MRV aparece nos números


Se existe uma tese de transformação da MRV&CO, Fischer aponta três indicadores para sustentá-la.


A margem bruta dos novos empreendimentos, segundo o executivo, chegou a 35%, o maior nível da história da companhia.



E a geração de caixa também vem melhorando. No segundo trimestre de 2026, a MRV Brasil gerou R$ 148,7 milhões.


A dívida líquida, hoje em R$ 5,9 bilhões, deve cair para aproximadamente R$ 4,6 bilhões com a conclusão das vendas de ativos da Resia, operação da companhia nos Estados Unidos.


A mensagem de Fischer é clara: o turnaround não deveria ser medido por um trimestre isolado, mas pela sequência.

“A boa notícia é que a cada trimestre vem melhor do que o anterior. É o que você pode esperar da gente: constância.”

💰 O novo terreno também muda a equação


Outro ponto menos visível da estratégia está na forma como a MRV compra terrenos.


No passado, era comum imobilizar capital na aquisição do terreno muito antes do lançamento. Hoje, Fischer diz que a companhia tem buscado estruturas mais equilibradas, principalmente por meio de permutas.


Na prática, o pagamento ao proprietário acontece em função das vendas futuras.


Isso muda completamente a relação entre lançamento, estoque e caixa.


A lógica passa a ser: vender antes de gastar na construção.


Para uma empresa que trabalha em grande escala, essa diferença pode ter impacto relevante sobre capital de giro e geração de caixa.


🏠 90% do negócio ainda está no mercado de baixa renda


Apesar das experiências com novos negócios, o centro da estratégia continua sendo o mercado de baixa renda.


Segundo Fischer, aproximadamente 90% do negócio da companhia está concentrado na operação MRV, sustentada principalmente pelo FGTS.


A Urba, especializada em loteamentos, aparece como outra frente de crescimento, enquanto a Lugo funciona como laboratório para o mercado de locação institucional — modelo que a MRV conheceu mais de perto durante sua experiência nos Estados Unidos.


É justamente aí que aparece outra mudança que Fischer considera relevante para os próximos anos: não necessariamente todo mundo precisará comprar um imóvel para ter acesso à moradia.


🔑 O futuro pode estar menos na compra e mais na locação


O executivo vê espaço para a locação institucional crescer à medida que o Brasil consiga trabalhar com juros mais baixos.


O raciocínio é especialmente relevante diante do envelhecimento da população.


Uma pessoa mais velha pode não ter condições (ou interesse) de assumir um financiamento imobiliário de 30 anos. Nesse caso, o acesso à moradia precisa encontrar outra solução.

“A forma de acessar o imóvel muda.”

E essa mudança pode criar espaço para modelos diferentes de produto, financiamento e operação imobiliária.


👷 O jovem ainda quer comprar. Mas talvez compre mais tarde.


Há uma contradição interessante nesse cenário.


O comprador médio da MRV tem 31 anos, segundo Fischer. É, em geral, seu primeiro imóvel.


Ou seja: apesar de mudanças comportamentais, o sonho da casa própria continua existindo.


O que mudou é o momento em que esse sonho se concretiza.


Famílias menores, menos filhos e uma maturidade financeira mais tardia podem fazer com que uma pessoa alugue primeiro e compre depois.


Para Fischer, isso não elimina a demanda. Apenas cria diferentes formas de acessá-la.


E, com um déficit habitacional estimado em 6 milhões de moradias, o mercado ainda tem uma questão básica para resolver: como produzir habitação suficiente para uma demanda que continua existindo, justamente quando fica mais difícil encontrar quem coloque esses prédios de pé?


🧱 A Reforma Tributária pode acelerar a industrialização


É nesse ponto que Fischer conecta a escassez de mão de obra à Reforma Tributária.


Na avaliação do CEO da MRV&CO, uma mudança importante pode ser permitir que incorporadores médios e pequenos tenham acesso a tecnologias e processos industrializados sem serem penalizados por uma estrutura tributária que dificulte essa transformação.


Ainda existe incerteza sobre o impacto da reforma no preço final dos imóveis.


Fischer não arrisca cravar se haverá encarecimento, principalmente porque parte da resposta dependerá do comportamento da indústria de insumos.


Para imóveis de interesse social, porém, sua expectativa é de neutralidade, considerando os mecanismos de redução tributária previstos.


O ponto mais importante talvez esteja em outro lugar: se a mão de obra continuará escassa, a produtividade terá de subir.


E produtividade, na construção, significa cada vez menos depender de processos executados integralmente dentro do canteiro.


🏙️ Construir melhor também significa decidir onde construir


Fischer também defende mudanças nos planos diretores municipais para ampliar a oferta de habitação de interesse social em regiões centrais.


Ele cita São Paulo como um exemplo que poderia ser replicado em outras cidades brasileiras.


A discussão, nesse caso, não é apenas sobre quantidade de unidades.



No fim, a transformação defendida pelo CEO da MRV&CO envolve três movimentos simultâneos: industrializar a construção, melhorar a eficiência financeira e repensar a forma como as pessoas acessam a moradia.


A construção civil pode até continuar precisando de milhões de novas casas.


A pergunta que Fischer coloca é outra: quem vai construí-las e de que maneira?



Fonte: MoneyTimes, em entrevista com Eduardo Fischer, CEO da MRV&CO. Citações e informações reproduzidas a partir da entrevista publicada pelo veículo. Foto: Gabriel Araújo/Divulgação)

 
 
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