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Construção civil quer atrair a Geração Z. Mas trocar “pedreiro” por “construtor civil” basta?

  • Foto do escritor: Redação Liga News
    Redação Liga News
  • há 19 horas
  • 4 min de leitura

Enquanto o Sinduscon-SP aposta em qualificação, plano de carreira e novos nomes para as profissões, Antônio Freitas, do Sintracon-SP, alerta: salário também precisa entrar na equação.


Construção civil quer atrair a Geração Z. Mas trocar “pedreiro” por “construtor civil” basta?

Só mudar o nome de pedreiro para construtor civil não vai incentivar os trabalhadores, na minha opinião. Acho que a principal coisa é melhorar o salário também.”— Antônio Freitas, presidente em exercício do Sintracon-SP

A frase de Antônio Freitas, presidente em exercício do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Civil de São Paulo (Sintracon-SP), coloca uma provocação no centro de um dos maiores problemas atuais da construção civil: como convencer uma nova geração a entrar (e permanecer) nos canteiros de obras?


A indústria está trabalhando mais, industrializando processos e tentando ganhar produtividade. Só que existe um ingrediente que nenhuma tecnologia substitui completamente: gente.



👷 O canteiro envelheceu. O jovem mudou.


A idade média dos trabalhadores da construção civil chegou a 42 anos. Ao mesmo tempo, as gerações Z e Alfa cresceram em um mercado de trabalho muito diferente daquele que formou boa parte dos profissionais que hoje estão nos canteiros.


Para muitos jovens, funções tradicionais como servente, pedreiro e carpinteiro competem com empregos ligados à tecnologia e até com atividades autônomas.


Aplicativos de transporte, por exemplo, oferecem algo que a construção nem sempre consegue entregar: flexibilidade, autonomia e controle sobre a própria jornada.

Então fica a pergunta: como disputar esse trabalhador?


Segundo Renato Genioli, vice-presidente Financeiro do Sindicato da Indústria da Construção Civil no Estado de São Paulo (Sinduscon-SP), o problema já ganhou escala.


mais de 100 mil vagas abertas no setor em São Paulo, e o servente está entre os profissionais mais difíceis de encontrar.


A conta é simples: sem trabalhadores, a expansão da atividade começa a esbarrar na capacidade de executar as próprias obras.


🏗️ A resposta do Sinduscon-SP: transformar emprego em carreira


É nesse contexto que o Sinduscon-SP lança, em setembro, o projeto “Trilhas de Carreiras Profissionais”, desenvolvido em parceria com o Senai e o Sintracon-SP.


Para Yorki Estefan, presidente do Sinduscon-SP, trata-se do “projeto mais revolucionário para atrair mão de obra para construção civil”.


A proposta tem três frentes.


A primeira é qualificação. O Senai levará cursos para dentro dos próprios canteiros, preparando os profissionais para trabalhar em modelos de construção mais industrializados.


A segunda é talvez a mais importante para transformar uma vaga em perspectiva profissional: criar uma trilha de carreira, com evolução de função e remuneração.

A terceira é a mais curiosa e também a que provocou a reação de Freitas: mudar os nomes das profissões.


💰 Sete degraus. E uma diferença salarial enorme.


O antigo servente passa a ser chamado de auxiliar de produção. O pedreiro vira construtor civil. O carpinteiro passa a ser instalador de formas.


Também entram na reformulação nomes como instalador hidráulico, instalador eletricista, instalador armador, impermeabilizador e instalador de sistema a seco.


A ideia, segundo David Fratel, diretor-adjunto de Gente do Sinduscon-SP e um dos responsáveis pelo projeto, é dar mais dignidade à função.


Há uma razão por trás disso.


Uma pesquisa realizada há dois anos pelo Sinduscon-SP em conjunto com o Sintracon-SP identificou que muitos pedreiros não gostariam que os próprios filhos seguissem a mesma profissão.


O problema, portanto, não seria apenas salarial. Existe também uma questão de percepção social da carreira.


Mas aí aparece a conta que Freitas coloca sobre a mesa.


O plano terá sete degraus, começando pelo auxiliar de produção e chegando ao mestre de obras sênior.


Hoje, segundo o Sinduscon-SP, um servente recebe em média R$ 2,4 mil, enquanto um mestre de obras pode chegar a R$ 20 mil a R$ 22 mil.


Existe, portanto, espaço para crescer.


A pergunta é: o trabalhador consegue enxergar esse caminho antes de entrar?


🤔 Trocar o crachá não resolve tudo


É justamente aqui que a fala de Antônio Freitas ganha força.


O presidente em exercício do Sintracon-SP reconhece a importância do projeto e afirma que a entidade participou de sua elaboração. Mas faz uma ressalva direta: a mudança de nomenclatura, sozinha, não será suficiente para atrair trabalhadores.


Para ele, salário também precisa entrar no centro da estratégia.


E talvez essa seja a questão mais difícil para o setor.


A construção civil não disputa apenas trabalhadores com outras construtoras. Ela disputa modelos de trabalho.


De um lado, oferece uma profissão que pode começar em uma função operacional e chegar à liderança de uma obra. De outro, precisa competir com atividades que prometem autonomia imediata, jornadas flexíveis e, em alguns casos, a possibilidade de começar a trabalhar com poucas barreiras de entrada.


Mudar “servente” para “auxiliar de produção” pode melhorar a percepção.

Mas será que melhora a decisão?


🚧 O teste começa agora


O projeto-piloto envolverá 10 construtoras e 20 empreiteiras em São Paulo. O Senai ficará responsável pela formação dentro dos próprios canteiros, com foco nas competências exigidas pela construção industrializada.


A ambição vai além do Estado.


Segundo Genioli, a ideia é transformar a experiência em referência nacional e permitir que a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) replique o modelo em outras unidades da Federação.


O desafio, porém, será medir se as três peças funcionam juntas: qualificação, carreira e remuneração.


Porque a construção civil já descobriu que precisa falar a língua da nova geração.

Agora precisa mostrar que, por trás de um novo nome no crachá, existe também um trabalho melhor, uma carreira possível e um salário que faça essa escolha valer a pena.

Fonte: O Estado de S. Paulo, com declarações de Antônio Freitas, Renato Genioli, Yorki Estefan e David Fratel.

 
 
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