Precisamos trocar o empirismo por uma carreira planejada na construção, afirma David Fratel do SindusCon-SP

há 21 horas
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Programa Trilhas Profissionais da Construção, lançado pelo SindusCon-SP com SintraCon-SP, FETICOM e Senai-SP, troca o empirismo por qualificação técnica certificada como motor da progressão e promete virar referência nacional em 2027, com apoio da CBIC

A construção civil paulista encara uma urgência estratégica: a mão de obra está envelhecendo (idade média de 42 anos), os jovens preferem os aplicativos e o setor precisa se reinventar para não ficar sem gente.
A resposta para lidar com esses desafios vem do programa Trilhas Profissionais da Construção, idealizado pelo SindusCon-SP em parceria com sindicatos e Senai-SP no âmbito do Fórum Permanente de Negociação e que estreia com roadshow pelo interior paulista e um piloto com 30 construtoras (entre elas MRV, Tenda, Pacaembu e Plano&Plano) antes de avançar para todo o país em 2027.
Em entrevista ao Liga News, David Fratel, diretor de Gente do SindusCon-SP e Vice Presidente da CBIC, explica como a nova escada de carreira deve transformar o canteiro em ambiente atrativo, remunerado e meritocrático. Confira:
Como o senhor descreveria hoje o quadro da mão de obra na construção civil paulista? O que mudou nos últimos anos em relação a atrair e reter profissionais?
Há mais de três anos discutimos institucionalmente o envelhecimento da mão de obra na construção civil e o distanciamento dos jovens dos canteiros de obras. No pós-pandemia, esse desafio se acentuou significativamente: o mercado de trabalho mudou de patamar com a explosão de vagas em plataformas digitais, trabalhos remotos e serviços flexíveis de entrega e transporte.
Em contrapartida, a construção civil permaneceu historicamente estigmatizada por jornadas engessadas, forte exigência física, baixa industrialização, pouca clareza de progressão e remuneração desalinhada. Para reverter esse apagão de talentos e tornar o setor novamente atrativo, a resposta exigiu uma virada de chave: substituir o empirismo por uma carreira industrial planejada, qualificada e meritocrática.
A idade média de 42 anos da mão de obra e os índices de dificuldade de contratação revelam um setor que não está conseguindo renovar seus quadros. Quando esse problema deixou de ser um incômodo e passou a ser uma urgência estratégica para o SindusCon-SP?
O envelhecimento populacional não é um fenômeno restrito à construção civil brasileira; trata-se de uma tendência mundial. Países desenvolvidos e economias como Alemanha, Itália, China e Japão já registram idades medianas elevadas, situadas entre 40 e 49 anos. O Brasil, como país em desenvolvimento, apresenta uma idade média que varia de 33 a 38 anos, o que significa que a nossa base demográfica está se estreitando rapidamente.
A renovação dos quadros na construção civil não ocorrerá na medida em que necessitamos ou desejamos. Não mais contaremos com o volume de trabalhadores que o modelo tradicional exigia no passado. A resposta do setor para enfrentar essa realidade passa por um contra-ataque em duas frentes: qualificação profissional e industrialização.
É por meio da adoção de sistemas construtivos industrializados, da redução do retrabalho e do aumento da produtividade que conseguimos entregar mais e com eficiência, dependendo menos do volume bruto de mão de obra direta e transformando o canteiro em um ambiente atrativo para as novas gerações.
Em maio de 2023, empresas, o sindicato dos trabalhadores e o Senai sentaram juntos no Fórum Permanente de Negociação. Como nasceu essa articulação e por que, desta vez, ela evoluiu para um projeto concreto?
Essa articulação nasceu da constatação, por parte do setor produtivo, dos sindicatos e das instituições de ensino, de que os desafios da construção civil (como o envelhecimento da mão de obra e a escassez de talentos) jamais seriam resolvidos de forma isolada ou por meio de confrontos e atritos trabalhistas tradicionais.
Desta vez, a virada de chave aconteceu porque unimos forças institucionais em torno de uma agenda positiva: superar a informalidade e a improvisação nos canteiros para acelerar a qualificação técnica e a industrialização dos nossos processos.
O que representa, na prática, uma construtora e um sindicato de trabalhadores construírem juntos um plano de carreira para o canteiro de obras?
Isso representa a maturidade do nosso setor e prova que estamos unidos para fortalecer a construção civil e consolidá-la, verdadeiramente, como uma indústria moderna. As diferenças ideológicas e políticas, entre sindicatos, trabalhadores e empregadores, podem e devem existir, mas o bem-estar do trabalhador e a sua ascensão profissional com base em critérios justos e baseados no ganha-ganha são desejos comuns e inegociáveis.
Como é essa nova escada de carreira e o que muda na vida de quem começa como auxiliar de produção hoje, em comparação com quem entrou no setor há dez anos como servente?
A nova escada de carreira e o modelo de Trilhas Profissionais da Construção mudam, de forma profunda, o destino de quem ingressa hoje no canteiro de obras. A iniciativa rompe de vez com a lógica de improvisação e informalidade do passado, introduzindo qualificação estruturada e crescimento profissional baseado na entrega e na competência técnica.
Há dez anos, a evolução na carreira era puramente empírica, dependendo do "tempo de casa" ou de critérios estritamente subjetivos. A transição inicial (como passar de "servente" para "oficial") ocorria sem prazos claros, previsibilidade ou respaldo em meritocracia. Hoje, com a integração direta ao Senai-SP, o trabalhador conta com uma rota transparente, na qual a capacitação técnica certificada acelera a ascensão e garante segurança e perspectivas reais de futuro.
O programa liga a progressão de carreira à qualificação pelo Senai. Por que a formação técnica certificada foi escolhida como o motor da progressão e não apenas o tempo de casa?
A formação técnica certificada pelo Senai foi escolhida como o motor da progressão, substituindo a lógica exclusiva do "tempo de casa", porque a industrialização da construção civil exige qualificação, competência mensurável e ganho real de produtividade e não apenas permanência passiva no posto de trabalho.
São sete áreas de atuação mapeadas, da construção a seco à impermeabilização. Isso significa que o trabalhador pode se especializar e mudar de frente ao longo da carreira? Como funcionam essas trilhas?
A estrutura organizacional substitui o antigo "carimbo engessado" por uma matriz modular. Por exemplo, um profissional pode consolidar seu nível como oficial de produção II e direcionar sua especialidade técnica conforme as demandas do mercado e sua própria aptidão, podendo transitar, por exemplo, de alvenaria para sistemas a seco (drywall e light steel frame) ou frentes de instalações hidráulicas/elétricas.
Todo o sistema parte de uma base sólida e padronizada (o nível de auxiliar de produção e oficial de produção I), focada em segurança no trabalho (SST), leitura de projetos, habilidades comportamentais e fundamentos da engenharia de canteiro. Isso significa que os conhecimentos fundamentais são universais; portanto, ao migrar de uma frente para outra, o trabalhador não recomeça do zero: ele aproveita sua bagagem de canteiro e complementa a formação com o módulo específico da nova área no Senai-SP.
Como as trilhas serão chanceladas institucionalmente e, futuramente, integradas às convenções coletivas de trabalho (CCTs), a especialização e a mudança de frente ocorrem de maneira formal e segura. O trabalhador ganhará uma "carteira de competências" reconhecida, o que ampliará sua adaptabilidade às inovações tecnológicas do setor, como a industrialização e o off-site, e garantirá que sua polivalência seja refletida diretamente em sua remuneração e plano de carreira.
A previsão é que um profissional percorra os sete níveis em cerca de 12 anos, até chegar a mestre de obras sênior. Esse horizonte é compatível com a expectativa de quem entra no setor hoje?
Sim, totalmente. Em cerca de 12 anos de evolução estruturada, um profissional que ingressa hoje na base, como auxiliar de produção, pode alcançar o topo da carreira como mestre de obras sênior, tudo isso sem a exigência de uma graduação formal em engenharia, mas com base em sua competência técnica certificada. Chegar a esse patamar significa alcançar uma remuneração altamente competitiva, que pode variar de R$ 25 mil a R$ 30 mil, somada à solidez da carteira assinada (CLT), segurança jurídica, benefícios e à valorização social de quem comanda a produção de uma grande obra.
A proposta também prevê acelerar promoções para quem se qualifica, chegando a oficial de produção I em seis meses, por exemplo, contra um ano no modelo antigo. Na prática, o que o trabalhador ganha em cada degrau: título e responsabilidade, ou há perspectiva de renda real?
Na prática, a aceleração das promoções e a qualificação técnica não entregam apenas um título, uma nomenclatura mais bonita ou uma nova responsabilidade no papel: elas representam ganho de renda real e previsibilidade financeira. No modelo vigente, a estagnação salarial e a falta de clareza sobre como crescer são os principais motores da insatisfação no setor. Com a nova escada de progressão das Trilhas Profissionais, cada degrau conquistado por meio da certificação formal se traduz diretamente em perspectiva de longo prazo e alta renda.
Empresários do setor têm feito uma observação que resume esse desafio: o jovem de hoje prefere ser "empresário de si mesmo" (dirigir um Uber, fazer entregas por aplicativo) a aceitar a hierarquia, a rotina e o tempo de amadurecimento que uma carreira tradicional exige. Como o senhor convence esse jovem de que vale a pena embarcar em uma trilha como essa, quando o aplicativo oferece dinheiro no fim da semana e a promessa de ser o próprio chefe?
A ilusão da liberdade imediata nos trabalhos através de "aplicativos" esconde uma armadilha: o "empresário de si mesmo" no modelo da "economia de bicos" assume sozinho todos os riscos, custos de manutenção, ausência de benefícios sociais, flutuação de ganhos e, o mais grave, a estagnação profissional. Não há plano de carreira, estabilidade ou horizonte de crescimento de longo prazo. Para convencer o jovem, mostraremos que a construção civil moderna oferecerá o oposto: consistência, proteção formal (CLT), progressão clara e ascensão real de renda.
Enquanto o aplicativo paga o dia a dia à custa de desgaste físico e despesa própria, a nova escada de carreiras do setor transformará o canteiro em uma verdadeira indústria. O jovem que entrar na base como auxiliar de produção tem um caminho visível de 12 anos para chegar ao topo como mestre de obras sênior, alcançando excelentes remunerações.
O programa começa com um roadshow pelo interior paulista e um piloto com 30 empresas antes de avançar para o restante do país em 2027, com a CBIC. Por que esse caminho gradual e não uma implantação de uma só vez?
Seria excessivamente ambicioso da nossa parte tentar implementar um programa inédito e de tamanha complexidade de uma só vez em todo o país. No Estado de São Paulo, temos a vantagem de enfrentar menos barreiras iniciais justamente porque já contamos com uma base sólida de aliança institucional e alinhamento: o apoio firme da FETICOM-SP e do SintraCon-SP, somado à gratuidade e à capilaridade dos programas de formação do Senai-SP.
O caminho gradual, passando pelo roadshow e pelo projeto piloto com as construtoras, é fundamental para aterrissar o modelo, corrigir os inevitáveis desvios de rota e aprimorar os processos. Só então, com a robustez testada e validada, poderemos abraçar os sindicatos e instituições de outros estados e expandir a implantação nacional de forma segura, com o apoio da CBIC.
O que essas 30 empresas pioneiras vão testar nos próximos meses e quais aprendizados o setor espera tirar do piloto?
Os principais objetivos e aprendizados que o setor espera extrair desse piloto incluem: aderência operacional e engajamento, testar a aceitação dos colaboradores e medir o interesse real dos profissionais em trilhar o caminho da qualificação e da meritocracia; enquadramento de profissionais experientes, avaliar metodologias justas para absorver e enquadrar os trabalhadores que já atuam no setor há anos, que estão, muitas vezes, estagnados e na informalidade, aplicando os devidos processos de requalificação e certificação técnica; adesão dos empreiteiros, engajar a cadeia de empreiteiros, que representa a força maior de trabalho nos canteiros, garantindo que adotem a nova padronização de cargos e as diretrizes do programa; e ajustes de processo e governança, identificar eventuais gargalos práticos, operacionais e de gestão de RH para corrigir desvios de rota antes de formatar, junto às convenções coletivas, a base sólida que será expandida em âmbito nacional a partir de 2027, com a CBIC.
Se o programa der certo, como o senhor imagina o canteiro de obras daqui a dez ou quinze anos?
Se o programa der certo (e estamos trabalhando incansavelmente para isso) imagino um canteiro de obras irreconhecível daqui a dez ou quinze anos. Será um ambiente totalmente industrializado, limpo, enxuto e de alta precisão, com menor dependência do volume bruto de mão de obra direta e forte integração de tecnologias como BIM e métodos off-site. Em vez do trabalho pesado e estigmatizado do passado, teremos uma força de trabalho altamente qualificada, produtiva, que domina processos complexos e ganha por produtividade e mérito.
Tudo isso em um espaço seguro, ergonômico, com pleno bem-estar no trabalho, forte segurança jurídica e com a participação ativa e crescente das mulheres comandando a engenharia e a produção dos nossos canteiros.
Quando criança, eu assistia ao programa Os Jetsons [clássico animado da Hanna-Barbera]. Exibido originalmente na década de 1960 e reprisado por gerações, ele acompanhava a família Jetson, vivendo 100 anos adiante, em uma cidade flutuante cheia de carros voadores, esteiras rolantes aéreas, telas de vídeo chamadas e robôs domésticos. O que parecia puro delírio de ficção científica nos anos 1960 hoje faz parte do nosso cotidiano digital, com reuniões por vídeo, automação residencial, humanóides e inteligência artificial. E o mais fascinante é ver que a própria construção civil, que por décadas parecia intocada pelo tempo, está fazendo o seu próprio salto futurista, com a industrialização, o BIM e a qualificação tecnológica dos canteiros de obras
RAIO-X | DAVID FRATEL
David Fratel é Engenheiro e Vice-Presidente da Área de Política de Relações Trabalhistas da CBIC e Presidente do CPRT (julho/26 a julho/29). No SindusCon-SP, atua como Membro do CTQ, Diretor de Gente, Coordenador do Grupo de Trabalho de Recursos Humanos, Coordenador do Fórum Permanente de Negociação e Conselheiro Fiscal. É Diretor do Grupo SIMPAR e Coordenador e Professor da Pós-Graduação do Instituto Mauá de Tecnologia, onde também é Membro do Conselho Diretor. Coordena o Fórum Permanente de Negociação composto por SindusCon-SP, SintraCon-SP, FETICOM e Senai-SP. Na GLIP-USP, é Árbitro do Centro de Estudo da Paz e Resolução de Conflitos. Na FIESP, é Conselheiro da CORT (Conselho Superior de Relações do Trabalho). No SENAI-SP, é Vice-Presidente do Conselho Técnico Setorial da Construção Civil (outubro/24 a dezembro/25).





























