Cimento em alta: o que os números revelam sobre a construção civil
- Redação Liga News

- 12 de jan.
- 3 min de leitura
Com juros no maior nível desde 2006, crédito restrito e PIB em desaceleração, as vendas de cimento cresceram, impulsionadas por infraestrutura, Minha Casa, Minha Vida e um mercado de trabalho aquecido.

Se você quer entender para onde a construção civil está indo, não comece pelo discurso político. Comece pelo cimento.
Em 2025, o Brasil consumiu 67 milhões de toneladas, alta de 3,7% no ano. Não é recorde histórico (ainda estamos abaixo de 2014), mas é um sinal claro: a obra voltou. E voltou puxada por três motores bem definidos.
Spoiler: eles não giram na mesma velocidade, mas se reforçam mutuamente.
📊 O cimento confirma: a base do setor está ativa (mesmo com juros a 15%)
Dezembro fechou com 4,9 milhões de toneladas vendidas, crescimento de 4,7% na comparação anual. Um dado que chama atenção em um ambiente que, teoricamente, deveria frear o setor:
Selic em 15% durante todo o ano
Crédito imobiliário travado
Endividamento das famílias em 49,1% da renda
Inadimplência recorde: 80,4 milhões de pessoas
Então por que o cimento não caiu? Porque a construção deixou de depender apenas do crédito privado tradicional.
🏘️ MCMV: o motor silencioso que sustenta o volume
Enquanto o mercado de média e alta renda sentiu o freio monetário, o Minha Casa, Minha Vida virou o principal estabilizador do setor. Em 2025:
+7,9% nos lançamentos
+15,5% nas vendas
Em algumas regiões, como o Norte, o programa respondeu por 60% dos lançamentos
Ou seja: onde o crédito privado saiu, o crédito público entrou. E entrou maior:
Orçamento acumulado desde 2023: R$ 180 bilhões
1,9 milhão de moradias contratadas
Meta de 3 milhões até 2026
A expansão para a Faixa 4, com imóveis de até R$ 500 mil, não é detalhe técnico. É uma mensagem direta ao mercado: o governo quer manter o canteiro rodando, mesmo com juros altos.
🚧 Infraestrutura: menos crescimento, mais escala
Se o MCMV garante volume, a infraestrutura garante tonelagem pesada. Segundo a ABDIB, 2025 será um novo recorde histórico:
R$ 280 bilhões em investimentos
84% vindos do setor privado
O crescimento desacelerou para cerca de 3% real, é verdade. Mas isso não é fraqueza, é maturidade de base. Os destaques dizem muito sobre o tipo de obra que avança:
Saneamento: +35,7%, chegando a R$ 44,5 bilhões
Transportes e logística: R$ 76,5 bilhões
Pavimento de concreto ganhando espaço em rodovias e cidades
Menos energia e telecom, mais obra física, durável e intensiva em cimento. Coincidência? Nada disso.
🧩 Quando os três números se encontram
Vamos ligar os pontos: Cimento cresce mesmo com crédito caro; MCMV sustenta a habitação e amplia base social; e Infraestrutura mantém projetos de longo prazo vivos. O resultado é um setor que:
Não está em euforia
Mas também não está em retração
Opera em modo defensivo e estratégico
É crescimento com freio de mão puxado — mas ainda assim, crescimento.
🌱 Mais obra, menos carbono (sim, isso importa)
Enquanto tudo isso acontece, a indústria do cimento brasileira:
Mantém uma das menores intensidades de carbono do mundo
Atinge 30% de coprocessamento energético
Evita 2,8 milhões de toneladas de CO₂
E ainda lança o Roadmap Net Zero 2050, sinalizando algo importante para investidores e financiadores: o setor não está só crescendo. Está se preparando para continuar financiável.
O que isso diz sobre 2026?
Se o cimento é o termômetro, a leitura é clara:
Não haverá boom desordenado
Não haverá colapso
Haverá obra seletiva, política pública ativa e capital privado cauteloso
Em outras palavras:quem souber onde o dinheiro público encontra o privado vai vender mais, errar menos e sobreviver melhor.










