Túnel Santos-Guarujá terá concreto que se ‘regenera’; entenda
- Redação Liga News

- 9 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
Obra de R$ 6,8 bilhões avança após licença ambiental, adota módulos pré-moldados que flutuam antes de afundar e exige soluções de impermeabilização capazes de sobreviver ao ambiente mais hostil previsto na NBR 6118.

Depois de décadas como promessa eleitoral, o Túnel Imerso Santos–Guarujá finalmente deixou o campo da imaginação. O Governo de São Paulo homologou a PPP, confirmou a Mota-Engil Latam Portugal S.A. como vencedora e colocou um ponto final no processo.
Preço do bilhete? R$ 6,8 bilhões, dos quais R$ 5,1 bilhões em aportes públicos. É grande, é caro, e muda o jogo logístico do maior porto da América Latina.
O pacote inclui construção, operação e manutenção por 30 anos. Ou seja: é responsabilidade para uma geração inteira de engenheiros.
O passo que faltava para a obra andar
A Cetesb liberou a licença ambiental prévia — o “sim, mas com condições”. Com isso, o projeto avança para a escolha da área onde ficarão as docas de fabricação dos módulos.Linha do tempo confirmada:
produção dos módulos: 2027
montagem do túnel: 2030
operação liberada: 2031
Sim, 2031 parece longe. Mas para uma obra desse porte (e submersa), é praticamente amanhã.
A engenharia que flutua antes de afundar
O túnel será feito com seis módulos pré-moldados de concreto armado, produzidos em uma doca seca e… transportados por flutuação até o canal. É isso mesmo: cada bloco gigantesco viaja como se fosse um navio. Depois, é submerso com precisão cirúrgica até os 21 metros de profundidade.
Para isso, os módulos recebem:
câmaras de ar para flutuação
sistemas hidráulicos para o posicionamento
monitoramento por sensores eletrônicos
controle total de estanqueidade
Concreto no ambiente mais hostil possível
E aqui começa o capítulo que os especialistas realmente prestam atenção. O local do túnel é classificado como Classe IV de agressividade ambiental, segundo a NBR 6118 — o nível mais severo.
Tradução para o decisor: Cloretos, sulfatos, corrosão acelerada e um ambiente que trabalha 24h para destruir sua estrutura.
Se o concreto não for pensado para durar, ele não dura. Simples assim.
Impermeabilização que não pode falhar (nunca)
Intervenção em túnel submerso não é como chamar a equipe de manutenção do condomínio.Requiriria parar a operação, drenar, acessar e reparar.Ou seja: a única solução aceitável é a que não exige reparo.
Cláudio Ourives, engenheiro e CEO da Penetron Brasil, explicou para o Massa Cinzenta o desafio: “Estruturas em ambiente marinho são as mais suscetíveis à deterioração. É indispensável garantir estanqueidade e proteção química desde o início — manutenção corretiva em túnel imerso é praticamente inviável.”
E ele vai além: Para esse tipo de obra, a tecnologia precisa ser capaz de autocicatrizar fissuras passivas de até 0,5 mm. Não é luxo. É sobrevivência.
Impermeabilidade por cristalização: quando o concreto se ‘regenera’
A solução defendida pelos especialistas é clara: aditivos de cristalização integral autocicatrizante, adicionados diretamente ao concreto durante a fabricação dos módulos.
Como funciona? Os compostos ativos reagem com a umidade e com subprodutos do cimento, criando uma rede cristalina insolúvel que:
sela poros e capilares
impede permanentemente a entrada de água
mantém a proteção ativa por toda a vida útil
melhora a estanqueidade com o tempo (ao contrário das membranas convencionais)
É quase como se o concreto tivesse um sistema imunológico próprio. Ourives resume bem: “A impermeabilização não enfraquece com os anos — ela melhora.”
O teste de fogo (ou melhor, de água salgada)
O túnel Santos–Guarujá será não apenas uma obra icônica, mas um marco de durabilidade. Se a engenharia brasileira acertar a mão na impermeabilização, o projeto vira referência global.










