R$ 100 bi nos trilhos: o novo ciclo que pode redefinir a logística brasileira
- Redação Liga News

- 2 de nov. de 2025
- 3 min de leitura
Com R$ 100 bilhões prometidos até 2035, o país tenta reerguer a malha ferroviária com um modelo híbrido de concessões e investimentos públicos.

Depois de décadas de abandono e promessas inacabadas, as ferrovias voltaram ao mapa dos grandes investimentos. Estima-se que R$ 100 bilhões sejam aplicados até 2035 — um número que faria qualquer ministro sorrir em coletiva.
Mas a novidade não está apenas no volume: o governo adotou um modelo híbrido de financiamento, misturando concessões privadas, recursos públicos diretos e renegociações contratuais. Uma estratégia “meio rodoviária, meio ferroviária”, que busca dar previsibilidade e segurança jurídica a quem topa colocar trilhos no país.
“Antes, as outorgas iam pro Tesouro e sumiam. Agora, elas voltam pras ferrovias”, disse George Santoro, secretário-executivo do Ministério dos Transportes, em entrevista para o Valor Economico. É o tipo de frase que o setor esperava ouvir há pelo menos 30 anos.
Cinco ferrovias e um país em obras (ou em disputa)
Entre as estrelas do novo pacote estão projetos que prometem mudar a geografia logística do Brasil:
🚄 Anel Ferroviário do Sudeste (EF-118) 🚄 Ferrovia de Integração do Centro-Oeste (Fico) 🚄 Corredor Leste-Oeste (Fico-Fiol) 🚄 Transnordestina, já com dois terços prontos 🚄 Ferrogrão, o projeto mais controverso — e que hoje repousa no STF.
Outros planos incluem a Ferrovia Norte-Sul, ramais no Pantanal, corredores em Santa Catarina e até trens de passageiros intercidades, tema quase folclórico na infraestrutura brasileira.
Na região Sul, o governo estuda um leilão em três lotes para aliviar o trânsito de caminhões rumo aos portos de Paranaguá, São Francisco do Sul e Rio Grande. Há até tratativas para reconectar o Brasil à Argentina e à Bolívia — uma agenda de integração latino-americana que parece saída direto de um discurso dos anos 1980.

🌾 O agro sobre trilhos: 58,8 milhões de toneladas a caminho
Grande parte dos novos projetos mira um público específico: o agronegócio. Segundo a consultoria Macroinfra, o país deve exportar quase 59 milhões de toneladas adicionais de grãos nos próximos dez anos. A equação é simples: sem ferrovia, o caminhão não dá conta. Mas o ritmo do escoamento via Arco Norte acende o alerta — especialistas falam em risco de “apagão logístico” se os investimentos não ganharem velocidade.
Ferrogrão: promessa, polêmica e um traçado no fio da navalha ⚖️
A Ferrogrão, de 976 km entre Mato Grosso e Pará, virou o símbolo da disputa entre o “Brasil que quer crescer” e o “Brasil que tenta preservar”. Economistas apontam o que chamam de “conta que não fecha”: retorno próximo de zero, dependência de R$ 30 bilhões do Tesouro e risco de desmatamento.
Organizações indígenas e ambientais também contestam o traçado, alegando ausência de consulta prévia aos povos afetados — algo previsto na Constituição e na Convenção 169 da OIT.
“Deixa o mercado decidir”
Para o Ministério dos Transportes, a Ferrogrão é apenas uma entre várias rotas possíveis — e o governo já estuda o percurso alternativo até Vila do Conde (PA), que custaria bem menos e atravessa áreas já degradadas. Sobre as críticas ambientais, promete diálogo:
O EVTEA da Ferrogrão fala em R$ 20 bilhões de custo e R$ 63 bilhões de benefício social, com redução de 40% nas emissões de CO₂ e 422 caminhões a menos nas estradas por trem.Mas o julgamento da ferrovia no STF — travado por um pedido de vista de Flávio Dino — ainda mantém o projeto nos trilhos... jurídicos.
Um setor que quer durar mais que um mandato 🕰️
Enquanto os embates seguem, o investimento privado nas ferrovias deve bater R$ 54 bilhões entre 2025 e 2027 — um recorde.“Nosso desafio é fazer com que esse bom momento dure por décadas”, diz Davi Barreto, da Associação Nacional dos Transportadores Ferroviários. Fácil? Nem tanto. O histórico de descontinuidade no Brasil é o maior vilão das ferrovias.
Pesquisadores da FGV Transportes apontam que ainda falta integração entre modais e equilíbrio competitivo com o transporte rodoviário.
🚉 Autorização ferroviária: o “novo capítulo” dos trilhos brasileiros
Outra aposta é o regime de autorizações ferroviárias, que permite a empresas construir e operar suas próprias linhas. A ANTT já firmou 45 contratos, mas só dois avançaram de fato — o que mostra que o desafio ainda é sair do PowerPoint. A agência promete segurança regulatória e previsibilidade, mas enfrenta o labirinto do licenciamento ambiental, das desapropriações e do financiamento de longo prazo
O trem saiu da estação — mas vai chegar? 🚂
Entre promessas, disputas judiciais e pressões ambientais, o Brasil volta a discutir trilhos com seriedade. Os R$ 100 bilhões prometidos até 2035 representam não apenas um investimento em infraestrutura, mas um teste de paciência, coordenação e maturidade política.Porque, se há algo que o Brasil faz bem, é sonhar com grandes obras. O desafio agora é ver o trem passar — e não só ouvir o apito ao longe.
Foto: Arte/Valor Economico










